Como realmente descansamos em um mundo que valoriza a produtividade acima de tudo? É comum associar o fim do ano com o merecido descanso, mas para muitos, o período que antecede as férias é marcado por uma ansiedade intensa. A necessidade de “deixar tudo pronto”, de não “deixar ninguém na mão”, e a preocupação com uma avalanche de e-mails na volta transformam o pré-férias em uma verdadeira loucura.
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Férias Curtas e o Círculo Vicioso: Férias de 10 dias ou uma semana muitas vezes não são suficientes para descansar. O corpo e a mente levam tempo para “desacelerar”. No quarto ou quinto dia, a pessoa está apenas começando a relaxar, mas logo a ansiedade do retorno se instala, e o acúmulo de trabalho na volta anula o pouco descanso obtido.
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Férias “Produtivas”: O impulso de ser “útil” não se desliga com as férias. Muitos acabam usando o tempo de descanso para resolver pendências pessoais, ir ao médico, fazer exames, ou até mesmo programar atividades para “otimizar” o tempo. O resultado é que as férias não são de fato férias.
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A Síndrome de “Ser Útil”: Há um medo inconsciente de “perder tempo” se não estivermos produzindo algo. A ideia de passar a tarde olhando TV ou “não fazendo nada” pode gerar culpa, mesmo que o corpo e a mente estejam clamando por essa pausa. Essa mentalidade de “estar produzindo sempre” é um modelo mental enraizado.
Os Perigos da conectividade e a cultura do “Tudo depende de mim”
A era digital e a cultura do “sempre disponível” intensificaram o problema. O WhatsApp, em particular, borrou as linhas entre o pessoal e o profissional, tornando o acesso às pessoas constante e invadindo a vida privada.
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Invasão da Privacidade: Ligar para um colaborador fora do horário de trabalho, enviar mensagens de trabalho em feriados ou durante as férias, ou até mesmo acionar alguém prestes a sair para um compromisso pessoal, não só é antiético, mas também altamente prejudicial ao bem-estar e ao engajamento.
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Pressão por Resposta Imediata: A expectativa de que a pessoa responda imediatamente, mesmo em seu tempo de descanso, cria uma cultura de medo de ser visto como “não comprometido” ou de “não gostar do chefe”.
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Falta de Gestão do Conhecimento: A ideia de que “tudo depende de mim” e que “não posso deixar ninguém na mão” muitas vezes reflete uma falha na gestão do conhecimento e no compartilhamento de informações dentro da equipe. Projetos multifatoriais precisam de um plano de transição claro, e não podem depender de um único indivíduo.
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Priorização Inadequada: A insistência em falar sobre certos temas ou tomar decisões urgentes quando um colega está de férias revela uma falta de priorização. É essencial avaliar se o assunto realmente não pode esperar o retorno da pessoa para evitar sobrecarregar quem está cobrindo e interromper o descanso alheio.
A Verdadeira Essência do Descanso
Descansar não é sinônimo de “não fazer nada” no sentido pejorativo. É sobre recarregar as energias, permitir-se o ócio criativo e desvincular-se das pressões do dia a dia.
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Mudança de ares: Viajar, estar com a família, ou simplesmente sair da rotina e das telas, são formas de mudar o ambiente e o foco.
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Prazeres Simples: Dormir até mais tarde, assistir a uma série sem culpa, comer no horário que der vontade (ou não comer, se for o caso!), pintar uma parede de uma cor nova ou simplesmente ficar na rede, são atividades que contribuem para o bem-estar e a sensação de liberdade.
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A Importância da Desconexão: Desligar as notificações, evitar checar o celular constantemente e adiar telefonemas de trabalho são pequenos atos de rebeldia que fazem uma grande diferença no nível de relaxamento.
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Reconhecimento das Fases da Vida: As prioridades mudam com as fases da vida. Curtir a infância dos filhos, por exemplo, é um tipo de “descanso” e investimento no futuro.
O Descanso Como Estratégia de Saúde e Engajamento
A forma como encaramos o descanso reflete nossa mentalidade sobre produtividade e bem-estar. As empresas que negligenciam o descanso de seus colaboradores pagam um preço alto em termos de engajamento, saúde mental e rotatividade.
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Não é “Se não responder, não gosta do chefe”: É preciso desconstruir essa narrativa tóxica e promover uma cultura de respeito ao tempo e ao espaço individual.
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Gestão do Conhecimento é Chave: Implementar uma gestão de conhecimento robusta e um plano de sucessão claro para que a ausência de um colaborador não paralise as operações.
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Priorização Consciente: As lideranças devem ser treinadas para priorizar de forma eficaz, evitando acionar pessoas fora do horário ou durante o descanso.
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O Descanso Gera Engajamento: Um colaborador descansado e com sua saúde mental em dia é mais produtivo, criativo e engajado.
Lidar com planos que não dão certo, permitir-se descansar de verdade e respeitar o descanso alheio são atitudes que promovem um ambiente de trabalho mais humano e produtivo.
E você, qual a sua maior dificuldade quando o assunto é descansar? Como você tem se permitido essa pausa necessária?
